Mercado
O fim da era Gates
Aposentadoria de Bill Gates mostra que mercado de software chegou à maturidade e abre o período de sucessões.
Por Vinícius Cherobino, do COMPUTERWORLD
Uma idéia, um punhado de amigos e a aposta onde ninguém mais viu a oportunidade de negócios.
Com o tempo, essa idéia se transforma em uma obsessão para, daí, tornar-se uma empresa. O tempo continua a passar e obriga, em um belo dia, que esta figura conhecida por suas idéias e liderança, se aposente.
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Várias grandes organizações passaram por isso. Assim como a Ford experimentou a saída do responsável pela criação da linha de produção, Henry Ford, a IBM foi obrigada a viver sem Thomas Watson, apontado como o responsável por sua internacionalização. Mal ou bem, essas companhias sobreviveram.
Agora é a vez da indústria de software começar a ver a aposentadoria daqueles profissionais que a construíram. Aqueles jovens que idealizaram suas empresas em garagens e passavam noites programando embalados por coca-cola e acid rock já estão com seus netos e começam a rumar para os chinelos e a cadeira de balanço.
Bill Gates é apenas o primeiro grande nome do setor de software que vai abandonar o escritório por decisão própria. O anúncio veio à público em junho de 2006, quando a Microsoft divulgou que – a partir de julho de 2008 – Gates teria concluído sua transição, deixando o dia-a-dia da companhia para dedicar mais tempo ao seu trabalho na Bill & Melinda Gates Foundation. A partir do mês que vem, ele estará ligado à companhia apenas como presidente do conselho e conselheiro em projetos de desenvolvimento.
Transformação
O processo de transição durou dois anos para garantir uma transferência segura e suave de responsabilidades. Em junho de 2006, Ray Ozzie assumiu o cargo de CSA (chief software architect) e, desde então, vem trabalhando em conjunto com Gates em todos os projetos que envolvam arquitetura técnica e de produto.
Na mesma ocasião, Carig Mundie assumiu o novo cargo de chefe da área de pesquisa e estratégia da Microsoft, e também passou estes dois anos trabalhando próximo a Gates para assumir a coordenação de todos os esforços de pesquisa e incubação da empresa. O cargo de CEO já era ocupado por Steve Ballmer há oito anos.
Apesar de todo o processo, fica uma dúvida: a Microsoft vai sofrer sem o líder que é automaticamente identificado com a marca? O primeiro a negar a possibilidade é Michel Levy, presidente da Microsoft Brasil, para quem Gates terá uma presença quase espiritual na companhia, que ainda vai se beneficiar da visão dele. “O que vemos é uma transformação da liderança e, de outro lado, a continuidade da vocação e da inspiração que ele trouxe para a empresa”, afirma.
“Em uma organização do tamanho da Microsoft, a real capacidade de influência do presidente é pequena. Teria impacto se fosse uma saída sem planejamento”, concorda Alfredo Pinheiro, diretor geral da consultoria Compass Management no Brasil. “Sair depois de uma gloriosa carreira, com a empresa saudável é uma coisa. Ser exonerado pelo conselho após um desempenho decepcionante é outra”, acrescenta, referindo-se a outras famosas experiências de ‘aposentadorias’ na indústria de TI.
Geraldo Coen, professor da história da tecnologia e profissional experimentado do setor com passagens por diversas empresas, fala sobre a experiência de trabalhar na Microsoft no momento em que a empresa estava se estabelecendo no Brasil. Tendo passado até por entrevista de emprego com Bill Gates, além de outros encontros pessoais com ele, o especialista acredita que a transição na Microsoft será tranqüila, especialmente por conta de quem vai assumir a posição de Gates.
“Nos primeiros três anos, era Gates quem vinha para o Brasil. Depois, apenas o Ballmer estava presente nas reuniões. Em 1989, a Microsoft já era muito Ballmer”, conta. Pinheiro concorda. “O substituto importa muito. Nesse caso, o [Steve] Ballmer é a cara da Microsoft desde que assumiu o cargo de CEO. Gates atua mais como um benemérito, como representante de software na alta sociedade, do que um administrador da empresa”.


